Como o Brasil deve ser impactado pelo tarifaço de Trump?
O efeito imediato das tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao comércio mundial deve ser o de desorganizar as cadeias globais de valor, afirmam especialistas ouvidos pela CNN.
Porém, o cenário também pode mostrar oportunidades ao Brasil.
Num contexto de globalização onde é um dos grandes players do comércio internacional, o Brasil deve sentir os efeitos da política comercial do republicano. O impacto mais claro e direto deve ser na redução do volume de exportação dos produtos brasileiros aos EUA.
Lucas Cury, consultor de inovação e internacionalização, aponta para queda da balança comercial e impactos no câmbio.
“Se as exportações caem, o fluxo de dólar cai. Ou seja, entrando menos dólares, ele se valoriza [ante o real]”, afirma Cury.
“Os exportadores terão que buscar outros mercados ou absorver as tarifas na forma de desconto para não impactar suas vendas. De qualquer maneira, haverá uma redução de receita dos exportadores”, pondera.
Além da reorganização da balança comercial, Leandro Consentino, cientista político e professor de Relações Internacionais do Insper, cita a possibilidade de a questão escalar e transbordar para outras matérias, como entraves regulatórios advindos da sobretaxação.
O presidente dos EUA deve anunciar nesta quarta-feira (2) tarifas recíprocas aos parceiros comerciais do país. Em fevereiro, ao afirmar que estudaria a implementação do mecanismo, Trump acusou o Brasil de taxar injustamente o etanol que entra no país.
Porém, brasileiros tanto exportam quanto importam pouco etanol na relação com os EUA.
Portanto, esta e outras tarifas recíprocas que Trump pode propor – a ser que busque ferir sua própria economia – devem ter impacto limitado ao Brasil, aponta a professora de Economia da PUC-RJ, Sandra Rios.
Ela aponta que o Brasil deve ser um dos países menos impactados, já que tem um comércio “relativamente modesto” com os EUA, representando 12% das exportações.
Em março, o presidente dos EUA colocou em vigor tarifas de 25% sobre todo o aço e alumínio que entram no país. A agência de classificação de risco Moody’s usou deste exemplo para quantificar o impacto reduzido da política comercial norte-americana à balança brasileira.
“Os produtos de aço representam menos de 1% do total de exportações para o México e pouco menos de 5% para o Brasil. Apesar de sua importância no aço, nenhum dos países é um grande fornecedor de alumínio para o mercado dos EUA”, aponta relatório da casa.
“Embora as tarifas sejam dolorosas para os produtores locais de aço — o México envia quase 90% de suas exportações de aço para os EUA, enquanto os EUA são o destino de pouco menos de 50% das exportações brasileiras de aço — não esperamos grandes impactos em toda a economia”, concluiu a instituição.
Desse modo, a avaliação da Moody’s é que o impacto ao Brasil deve vir de maneira indireta, através de como a economia chinesa for impactada pelas tarifas dos EUA, por exemplo.
Assim, uma saída apontada é o fortalecimento deste e outros laços comerciais que o Brasil possui, para mitigar qualquer possível reverberação da dependência dos EUA.
“Geralmente, política tarifária vai na contramão do que temos de boas práticas que a literatura científica recomenda. Geralmente tem resultados ruins no longo prazo. […] O Brasil pode se dar bem ao aproveitar o cenário para se fortalecer com outros parceiros, até outros da própria América Latina”, pondera Joelson Sampaio, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Da CNN Brasil. Imagem: Money Times